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Felipe Picone e a Ritalina
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Felipe Picone e a Ritalina
Felipe Picone tem 26 anos de idade. Ele é portador de déficit de atenção. Sua renda não lhe permite pagar mensalmente de uma maneira confortável o remédio chamado Ritalina LA, encontrado nas farmácias por R$ 180,00 (cento e oitenta reais).
Ao saber da possibilidade de fornecimento do remédio pelo Sistema Único de Saúde (SUS), Felipe decidiu encarar o processo administrativo de obtenção do medicamento.
A seguir, o relato do caminho percorrido por Felipe até o fornecimento do remédio.
Meu nome é Felipe Picone e tenho TDAH (quem não conhece o problema, acesse www.tdah.org.br). O medicamento para controlar os sintomas (infelizmente não há cura) é o Ritalina LA de 30 mg, da Novartis. O preço médio deste medicamento gira em torno de R$180,00, para dose de um mês, e terei que toma-lo pro resto da vida (ou até quando eu quiser manter meu emprego e meus relacionamentos estáveis).
Sendo que R$180,00 não é pouco dinheiro para se gastar todo mês, pensei na possibilidade de conseguir o medicamento pelo SUS para tentar reaver um pouco de retorno deste nosso governo sanguessuga, que nos obriga a trabalhar TRÊS MESES por ano apenas para pagar impostos.
É aí então que começa o dramalhão mexicano, com muitos capítulos de verdadeira "burrocracia", ignorância e desinteresse de servidores municipais e estaduais da saúde e, pra completar, um ping-pong humano (vai pra lá, vem pra cá, volta pra lá etc etc etc...).
A primeira tentativa foi quando passei ao lado de uma farmácia "Dose Certa" na entrada da estação Clínicas, e perguntei se tinham Ritalina por lá...
Dia: 10.09.09
Local:"Dose Certa" do metrô Clínicas
Orientação: A funcionária informou que Ritalina não fazia parte da lista de medicamentos distribuídos pelo "Dose Certa", lá seriam apenas medicamentos comuns como anticoncepcionais, analgésicos etc... Perguntei então onde eu poderia conseguir Ritalina pelo SUS e fui orientado a me dirigir à farmácia do HC para ver se eles fornecem este medicamento.
Dia: 10.09.09
Local: Hospital das Clínicas - balcão de informações na entrada do hospital
Orientação: Lá recebi a orientação de que eles fornecem medicamentos apenas para pacientes do próprio HC. Então perguntei o que devo fazer para me tornar "um paciente do HC", e ela explicou que tenho que agendar uma consulta por um telefone (me entregou um papel xerocado e mal cortado com informações escritas à mão com o nº 11-26320500, coisa bem porca e amadora).
Dia: 10.09.09
Local: Ligação para o telefone passado pelo HC para marcação de consulta
Orientação: Não houve. Tentei várias vezes ligar no telefone 11-26320500, em horários diferentes, e sempre tocava até cair a ligação. Acho que o sinal de ocupado ou musiquinha de espera seria mais respeitoso e digno do que ficar tocando até você desistir de esperar que alguém tenha a boa vontade de atender.
Dia: 11.09.09
Local:Ligação para o telefone passado pelo HC para marcação de consulta
Orientação: Várias ligações e não fui atendido.
Dia: 14.09.09
Local:Ligação para o telefone passado pelo HC para marcação de consulta
Orientação: Várias ligações e mais uma vez não fui atendido.
Dia: 15.09.09
Local:Ligação para o telefone passado pelo HC para marcação de consulta
Orientação: Depois de toda lenga lenga, tentando sem sucesso ser atendido no telefone 11-26320500, em horários diferentes e dias diferentes, no dia 15/09/09 uma alma generosa finalmente atendeu o telefone. Após eu informar que precisava passar por um neurologista do HC para dar continuidade no meu tratamento de TDAH, fui informado que .... (aqui é a primeira demonstração de tentativa do estado de controlar ao máximo os gastos com saúde)... os pacientes tratados no HC são ENCAMINHADOS de outros hospitais ou de UBS (postos de saúde municipais).
Mesmo explicando que não era o meu caso pois eu já tinha o diagnóstico certo e apenas precisava dar continuidade do tratamento, a atendente foi categórica: apenas encaminhado de outros órgãos, o HC "não fazia mais o 1º atendimento para evitar fila de espera muito grande".
Para mim, ficou claro agora porque não existem mais aquelas cenas de filas intermináveis na porta do HC, cena comum há uns anos atrás. Não foi pela melhora e ampliação no atendimento, na verdade foi uma grande sacada dos nossos governantes: dificulte o acesso para evitar filas!!!
Dia: 20.10.09
Local:Telefone 156 da prefeitura de SP
Orientação: Pretendendo fazer tudo dentro da maldita burocracia para evitar caras feias de atendentes com ar irônico dizendo: "faltou tal documento senhor..., não é neste setor senhor..., o atendimento para este tipo de solicitação já encerrou o expediente hoje senhor..."; liguei no 156 e solicitei o telefone da UBS mais próxima. A atendente foi solícita e rápida, com meu CEP em mãos em poucos minutos ela localizou a UBS Moinho Velho (na Rua Belgrado) e me passou o número deles.
Dia: 20.10.09
Local:UBS Moinho velho
Orientação: passei na UBS moinho velho para obter informações sobre como me "tornar" um paciente do SUS e assim ter acesso ao meu medicamento. Lá a Dra. Márcia me informou que nas UBS não havia medicamentos deste tipo (psicotrópicos) mas me explicou que como o diagnóstico já estava feito e eu já estava com a receita amarela em mãos (para medicamentos controlados), eu poderia ir direto no AMA Flávio Gianotti para pegar Ritalina, pois lá eles teriam medicamentos deste tipo.
Dia: 25.10.09
Local:AMA Flávio Gianotti
Orientação: Com as orientações passadas pela Dra. Márcia da UBS moinho velho, fui ao AMA Flavio Gianotti para "tentar" me tornar um paciente do SUS e ter o meu direito fundamental de acesso à saúde respeitado.
Ao chegar na recepção, informei que já estava sob tratamento de TDAH e que já tinha inclusive a receita especial para ter acesso à Ritalina. Perguntei então como proceder para receber deles este medicamento. As atendentes pareciam perdidas e confusas com a pergunta, como se nunca ninguém tivesse se deparado com uma situação tão absurda e incomum de um cidadão pedir remédios no posto de saúde. Pediram para conversar direto com a equipe da farmácia.
Já na farmácia, novamente caras confusas ao informar que eu precisava de Ritalina e que já estava com a receita em mãos. Aí vieram as perguntinhas:
- Mas.... o senhor é paciente deste posto?
- Não, já passo com um médico particular que me dá as receitas.
- Ah, mas só fornecemos os medicamentos para quem é paciente do próprio SUS, você deve vir encaminhado de uma UBS pra cá e só depois ter acesso ao medicamento por aqui.
- Mas uma médica da UBS moinho velho falou que tendo a receita já comigo não teria que passar por um médico do SUS, já podia buscar o medicamento com vocês.
- Não... mas... não, só podemos fornecer para quem vem encaminhado de UBS e você tem que trazer "um outro documento" que é fornecido pelo médico. É um "controle interno" nosso.
- Mas a própria médica do UBS não falou nada deste documento para controle interno.
- Sim, mas precisa deste documento também, além da receita (neste momento, a feição do atendente da farmácia era de quem estava não estava com a mínima disposição de ajudar, mesmo sabendo que na UBS eu recebi orientação por uma médica).
- Certo, então tenho que de qualquer jeito iniciar o atendimento por uma UBS, depois eles me encaminham para vocês para continuar o tratamento para só depois de tudo ter acesso ao medicamento?
- Sim.
- Vocês podem me mostrar onde estão escritas estas regras para quando eu voltar na UBS eles não me mandem de volta para vocês?
- Mas estas regras são de conhecimento do pessoal da UBS.
- Sei... então tá bom. Muito obrigado, viu?!?!
Novamente, este palhaço que aqui vos relata esta novela foi para a casa com a sensação de que isto ia ser muito mais difícil do que eu pensava.
Dia: 30.10.09
Local:UBS Moinho velho
Orientação: Conforme orientações recebidas no Flavio Gianotti, retornei à UBS para, novamente, "tentar" me tornar paciente do Sistema Único de Saúde.
Consegui reencontrar a própria Dra. Márcia e a mesma mostrou uma certa irritação em ver minha simpática (e insistente) figura novamente. Antes mesmo de que eu começasse a falar, ela já foi avisando que eles não tinham lá aquele medicamento e que era pra ir no Flavio Gianotti e bla bla blá etc etc etc..
Deixei ela gastar um pouco de saliva porque já senti que se entrasse no jogo dela e começar a discutir no mesmo tom quem iria dançar seria eu mesmo. Depois de ela finalmente abrir espaço para minhas explicações, novamente me deparei com aquele fatídico ar de espanto e surpresa (engraçado como os servidores da saúde se espantam com a burocracia deles mesmo) pois ela não conseguia entender porque me mandaram de volta para a UBS. Aí ela teve uma genial idéia:
- Irei me informar como você deve proceder porque agora eu não saberia te dizer. Me passa teu celular que eu te ligo... ou melhor.... você me liga daqui unas 10 dias e eu te passo a informação correta.
Vejam vocês, queridos leitores, que o destaque na palavra "correta" não foi um vacilo na digitação, foi sim para mostrar o absurdo que acabaram de ler. A própria servidora pública da saúde do município de SP NÃO SABE O QUE TENHO QUE FAZER PARA TER ACESSO A UM MALDITO MEDICAMENTO. É o cúmulo da indiferença, da falta de respeito e incompetência. Presume-se que se ela foi aprovada em concurso público para a vaga que ocupa, então é OBRIGAÇÃO dela conhecer os trâmites da burocracia do próprio órgão em que trabalha, o que me leva a chegar a seguinte conclusão: ou ela "esqueceu" (por falta de prática pois até hoje ninguém foi chato o suficiente pra insistir até o ponto de deixa-la sem argumentos) ou ela está intencionalmente dificultando o processo na esperança de economizar um troco para o cofre da prefeitura.
Saí de lá sem era nem beira, ou como diria o Caetano, sem lenço nem documento. Chocado mesmo com ineficiência da saúde pública, burrocracia demais e vontade de menos para ter meu direito fundamental respeitado.
Dia: 15.11.09
Local: AME Maria Zélia
Orientação: Já com as forças e o ânimo começando a esmasiar pois já não sabia mais para quem, como e onde reclamar de tamanha burocracia e desinteresse, eis que surge nosso querido Vinicius com uma informação valiosa que NUNCA antes sequer foi cogitada por nenhuma das pessoas que conversei nesta maldita novela mexicana: "- Pelo que eu sei, medicamentos de alto custo podem ser solicitados pelo AME Mra. Zélia. Tente dar uma passada por lá...".
AME significa "Ambulatório Médico de Especialidades" e pertence à Secretaria Estadual da Saúde.
Pois bem, munido da informação que infelizmente poucos tem o privilégio de receber pois não há interesse que se divulgue, fui no mesmo dia então até o Mra. Zélia .
Antes de continuar, apenas um detalhe curioso. Não sei se só eu que achou isso estranhou mas este posto de saúde fica na rua Jequitinhonha, 360, no bairro do Belém. Esta rua, que é de sentido único, inicia depois de passar por um verdadeiro labirinto de ruas e termina... vejam só .... direto na ponte Pres. Jânio Quadros (marg. Tietê). Traduzindo: o acesso a este posto de saúde só é possível através de um único e complexo caminho, não há alternativas de ruas ou atalhos, e a rua é mão única. Pensei então, cá aqui com meus botões, por que construir um posto de saúde numa região tão inacessível e afastada do centro? Deixo no ar essa indagação para que vocês tirem suas próprias conclusões...
Cheguei no Mra. Zélia e tive que me informar com o segurança mesmo, não há nenhum tipo de recepção para orientar os desorientados. Fui para o setor (não me recordo exatamente qual) onde se pode dar entrada no processo administrativo para obter medicamentos denominados de "alto custo" (Só outra obs., acho que estou inspirado hoje Rss... achei engraçada essa denominação oficial, "alto custo".... concordam que é um conceito relativo? O que pode custar alto pra mim pode não ser tão alto pra você, porém quem decide isso por você são tecnocratas do governo, despachando do alto dos seus gabinetes equipados com ar condicionado e cafezinho na garrafa térmica); e lá fui rapidamente atendido onde fui orientado que antes deveria apresentar a receita médica da ritalina para dar entrada no processo.
Então perguntei:
- Mas não há nada que eu já possa fazer para iniciar o processo?
- Não, somente após apresentar a receita.
Pois bem, agradeci e fui embora com a sensação de que perdi minha viagem naquele dia, depois descobri que tinha perdido mesmo...
Dia: 17.11.09
Local: Consulta médica na Unidade de Saúde
Orientação: Fui atrás do meu médico para conseguir novas receitas da Ritalina pois as daquele mês eu já havia utilizado. Ao comentar que era pra conseguir o medicamento pelo estado, meu simpático e animado médico disse, sem mostrar qualquer emoção no rosto e de forma seca:
- Você não vai conseguir.
- Ah é, doutor? Por que não?
- Porque você não vai conseguir.
- Ah, entendi... muito obrigado viu?!?
Saí do consultório e fui pra casa pensando: por que tanta ênfase em me desestimular?
Dia: 20.11.09
Local: AME Maria Zelia
Orientação: Voltei ao Mra. Zélia, no setor dos processos administrativos de medicamentos de alto custo, e graças a Deus novamente fui atendido sem fila. Ao informar que eu precisava dar entrada em processo pra receber a Ritalina o atendente perguntou:
- Está com a receita?
- Sim claro, aqui está!
.... pegou a receita na mão, olhou por alguns segundos.....
- Certo, pode levar então este laudo para seu médico preencher e assinar para depois dar entrada no processo.
- Legal, mas você não vai me passar nenhum protocolo? Não vai iniciar o meu processo?
- Não, depois que seu médico preencher esse laudo, você volta aqui trazendo também a receita e aí sim iniciamos o processo.
- Mas esse papel do laudo não tem nenhum controle então? São todos iguais?
- Sim.
- E por que não me entregou esse papel da primeira vez que passei aqui, para eu levar já para o meu médico?
- Porque você não "apresentou" a receita.
Sabem aqueles desenhos onde o personagem ganha um belo par de orelhas de asno quando descobre que foi feito de idiota? Foi exatamente assim que me senti naquele momento.
Evitando transparecer a minha vontade de quebrar tudo ali, agradeci com aquele famoso "muito obrigado viu?!?" em tom irônico e um sorriso amarelo (quase verde de tão podre) no meu rosto.
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